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Como a internet transformou lendas urbanas em creepypastas

Por Todos Somos Geek · · 4 min de leitura
Como a internet transformou lendas urbanas em creepypastas
“A perna cabeluda” | Crédito: Reprodução/ Acervo Diário de Pernambuco

As creepypastas surgem do fenômeno da internet enquanto as lendas urbanas são consagradas pela tradição oral. Durante décadas, histórias de assombração e personagens assustadores fizeram parte da infância de milhões de pessoas. Narradas por familiares, amigos ou colegas de escola, as lendas ajudavam a transmitir ensinamentos para as crianças, mesmo que de forma assustadora.

Por exemplo, bastava um adulto mencionar o homem-do-saco para muitas crianças ficarem em alerta. A história do desconhecido que circulava pelas ruas levando embora quem não obedecia aos pais marcou a infância de diferentes gerações e ganhou versões variadas em várias regiões do país. Hoje, com a expansão da internet e das redes sociais, a tradição de contar histórias migrou para o ambiente digital. As histórias se adaptaram para novos formatos, como as creepypastas.

Para o jornalista Roberto Beltrão, idealizador do projeto "Recife Assombrado", as histórias de terror continuam sendo um grande sucesso entre todas as idades. Isso porque elas ajudam os telespectadores a lidarem com seus próprios medos de forma controlada. "Por trás de toda narrativa há um medo social ou pessoal. Histórias de zumbis, por exemplo, costumam ser alegorias políticas sobre a divisão de pessoas sãs e loucas. Quanto mais difícil a convivência social e maior o sentimento de desamparo, mais as pessoas são atraídas pelo terror", disse.

A lenda urbana também pode ser uma maneira de traduzir sentimentos complexos e lidar com assuntos que a sociedade ainda não está pronta para debater diretamente. Roberto Beltrão cita como exemplo a lenda da "Perna Cabeluda", conto popular que nasceu de uma notícia publicada pelo Diário de Pernambuco durante o regime militar. A matéria foi escrita de forma sensacionalista e supostamente "fictícia" para burlar a censura que os jornais sofriam na cidade do Recife.

"A matéria do Diário de Pernambuco de 1975 era sensacionalista e, em meio às sequências de matérias, uma testemunha afirmou ter visto uma 'perna cabeluda'. O jornalista Raimundo Carreiro criou uma ficção sobre isso e a história ganhou corpo, transformando um fato inicial em algo muito maior através de visões, preconceitos e questões culturais." A "perna" também passou a ser utilizada como código para que os jornalistas pudessem denunciar agressões policiais sem sofrer represálias do regime militar.

Muito antes da popularização da internet, as lendas urbanas circulavam principalmente pela oralidade. Eram histórias passadas de geração em geração, muitas vezes associadas a uma região, cidade ou comunidade específica. Essas narrativas ajudavam a preservar aspectos culturais e fortalecem a identidade coletiva. Com o avanço das tecnologias digitais, o processo de circulação dessas histórias mudou significativamente.

Para Giovanna Rubbo, escritora e pesquisadora do horror na literatura, a oralidade é a mãe da narrativa. Ela explica que a prática de contação de histórias através da fala surgiu antes dos livros e da escrita. "Atuar como contadora de histórias de terror já me levou a diversos espaços, de bibliotecas a cemitérios, bares e feiras esotéricas, com os mais variados públicos, e o que sempre me impressionou é a troca de experiências", afirmou.

Atualmente, uma narrativa criada em qualquer parte do mundo pode alcançar milhões de pessoas em poucos dias. O alcance se tornou global, reduzindo as fronteiras que antes limitavam a disseminação das lendas. Existe uma grande diferença na forma que as histórias de terror são contadas digitalmente. "Podemos até deixar um comentário, mas não é a mesma coisa. Talvez o coletivo afaste o medo que um ouvinte poderia sentir se estivesse em casa, sozinho", concluiu Giovanna.

O termo "creepypasta" é a junção de "creepy", que pode ser visto como "bizarro" ou "aterrorizante", e "pasta", que vem de "copypasta", próximo ao ato de copiar e colar certo texto entre fóruns online. As creepypastas são histórias bizarras partilhadas tantas vezes no ambiente online que se tornam virais. Essa prática teve início nos anos 2000 em um período mais simples da internet, onde os blogs e fóruns reinavam como forma de contato social.

As creepypastas se tornam uma versão moderna das clássicas lendas urbanas, visto que todos os aspectos das lendas estão presentes nelas. Dentre eles, a prática de compartilhar entre outros, agora feita em fóruns online, e o lado misterioso, sombrio e até fabulesco que carregam. Uma outra ótica pela qual se pode ver as creepypastas é como forma de folclore digital. Essas narrativas, por partirem de diversos lugares, trazem dúvida sobre a nossa própria realidade.

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