Lendas urbanas vs creepypastas: como a internet virou a nova fogueira do terror

As lendas urbanas e as creepypastas representam duas formas de contar histórias de terror que se diferenciam pelo meio de transmissão. As lendas urbanas são consagradas pela tradição oral, enquanto as creepypastas surgem do fenômeno da internet.
Por décadas, histórias de assombração e personagens assustadores fizeram parte da infância de milhões de pessoas. Narradas por familiares, amigos ou colegas de escola, as lendas ajudavam a transmitir ensinamentos para as crianças, mesmo que de forma assustadora. Bastava um adulto mencionar o homem-do-saco para muitas crianças ficarem em alerta. A história do desconhecido que circulava pelas ruas levando embora quem não obedecia aos pais marcou a infância de diferentes gerações e ganhou versões variadas em várias regiões do país. Com a expansão da internet e das redes sociais, a tradição de contar histórias migrou para o ambiente digital e se adaptou para novos formatos, como as creepypastas.
Para o jornalista Roberto Beltrão, idealizador do projeto "Recife Assombrado", as histórias de terror continuam fazendo sucesso entre todas as idades porque ajudam as pessoas a lidarem com seus próprios medos de forma controlada. "Por trás de toda narrativa há um medo social ou pessoal. Histórias de zumbis, por exemplo, costumam ser alegorias políticas sobre a divisão de pessoas sãs e loucas. Quanto mais difícil a convivência social e maior o sentimento de desamparo, mais as pessoas são atraídas pelo terror", afirmou.
A lenda urbana também pode ser uma maneira de traduzir sentimentos complexos e lidar com assuntos que a sociedade ainda não está pronta para debater diretamente. Beltrão cita como exemplo a lenda da "Perna Cabeluda", conto popular que nasceu de uma notícia publicada pelo Diário de Pernambuco durante o regime militar. A matéria foi escrita de forma sensacionalista e supostamente fictícia para burlar a censura que os jornais sofriam no Recife. "O jornalista Raimundo Carreiro criou uma ficção sobre isso e a história ganhou corpo, transformando um fato inicial em algo muito maior", explicou. A "perna" também passou a ser usada como código para que jornalistas denunciassem agressões policiais sem sofrer represálias do regime militar.
Antes da popularização da internet, as lendas urbanas circulavam principalmente pela oralidade. Eram histórias passadas de geração em geração, associadas a uma região, cidade ou comunidade específica. Para Giovanna Rubbo, escritora e pesquisadora do horror na literatura, a oralidade é a mãe da narrativa. "Atuar como contadora de histórias de terror já me levou a diversos espaços, de bibliotecas a cemitérios, bares e feiras esotéricas. Uma das coisas mais legais dos eventos presenciais é abrir espaço para que as pessoas falem sobre suas próprias experiências", disse.
O termo creepypasta é a junção de "creepy", que significa bizarro ou aterrorizante, e "pasta", que vem de "copypasta", referente ao ato de copiar e colar textos em fóruns online. As creepypastas são histórias bizarras compartilhadas tantas vezes no ambiente online que se tornam virais. Essa prática teve início nos anos 2000, em um período onde blogs e fóruns reinavam como forma de contato social. A autoria dessas histórias tem no anonimato sua maior marca, o que agrega ao horror delas. As creepypastas se tornam uma versão moderna das clássicas lendas urbanas, mantendo aspectos como o compartilhamento entre outros, agora feito em fóruns online, e o lado misterioso e sombrio que carregam.