Trajes Fatais: A saga do polêmico jogo de luta brasileiro
Poucos projetos do cenário indie brasileiro tiveram uma trajetória tão conturbada quanto "Trajes Fatais". Idealizado em 2009, o ambicioso jogo de luta nacional se tornou um símbolo de potencial criativo, mas também de uma longa sequência de problemas que se arrastam até hoje. Entre prêmios, financiamentos coletivos e promessas não cumpridas, o título nunca foi concluído. Agora, com uma possível proposta de compra no horizonte, a comunidade volta a discutir o destino do game.
Um projeto promissor que nunca foi concluído
"Trajes Fatais" nasceu de uma ideia original de David Herculano e ganhou força ao longo da década de 2010, desenvolvido pelo estúdio cearense Onanim. A proposta era um jogo de luta 2D em pixel art, no estilo de clássicos como "Street Fighter" e "The King of Fighters", com personagens inspirados na cultura brasileira, como um cangaceiro. O game foi eleito Melhor Jogo por voto popular no SBGames 2015 e levou o prêmio de Melhor Jogo Brasileiro na BGS de 2016. Em 2017, uma campanha de financiamento coletivo arrecadou mais de R$ 114 mil, superando a meta de R$ 80 mil. Apesar disso, o lançamento nunca aconteceu.
O suposto desvio de dinheiro
Segundo reportagem do Start, do UOL, publicada em 2020, um ex-integrante do estúdio teria desviado cerca de R$ 48 mil dos valores captados. O suposto desvio foi atribuído a esse antigo membro da equipe, e não aos desenvolvedores que permaneceram no projeto. Na época, Onofre Paiva e Jonathan Ferreira, então à frente do desenvolvimento, relataram à imprensa que o sumiço do dinheiro comprometeu a finalização do game. O profissional apontado como responsável teria firmado um acordo para devolver o valor de forma parcelada. O baque financeiro levou à dispensa de parte da equipe, que não pôde mais ser remunerada.
Mudanças de rumo e saída de desenvolvedores
Além das dificuldades financeiras, relatos de ex-integrantes apontam problemas de gestão criativa. Vários desenvolvedores descreveram a experiência como frustrante, citando supostas mudanças constantes de direção e falta de clareza no comando, conduzido por Onofre. Esse retrabalho recorrente teria contribuído para os atrasos. A equipe original foi se desfazendo. David Herculano, idealizador do conceito, deixou o projeto, que ficou concentrado nas mãos de Onofre. Em 2022, a Onanim foi encerrada, e "Trajes Fatais" passou a ser tocado pela Labit Space, empresa de outsourcing ligada a tecnologias como metaverso e NFT. Novos cronogramas foram prometidos, mas nenhum prazo foi cumprido.
Indignação da comunidade e a questão da saúde mental
A situação gera revolta entre fãs do cenário de jogos indies e de jogos de luta no Brasil. Muitos apoiadores que investiram no financiamento coletivo se sentem lesados. A insatisfação aumentou ao notarem que os canais oficiais do projeto passaram a ser usados para conteúdos sobre arte e outros assuntos, em vez de atualizações sobre o desenvolvimento. Recentemente, Onofre publicou um vídeo no qual relata enfrentar sérias questões de saúde mental. Parte da comunidade passou a defender que a prioridade seja o seu bem-estar. Surgiram pedidos para que Onofre considere vender "Trajes Fatais" a quem possa levá-lo adiante.
A proposta da Statera Studio
Jon Satella, da Statera Studio, que também teve passagem pelo desenvolvimento de "Trajes Fatais", se ofereceu publicamente para comprar o jogo e assumir sua finalização. A proposta animou os fãs, especialmente pelo prestígio da Statera. O estúdio é responsável por "Pocket Bravery", fenômeno indie brasileiro indicado a Melhor Jogo de Luta no The Game Awards. "Pocket Bravery" nasceu da frustração de desenvolvedores com os rumos de "Trajes Fatais". Até o momento, Onofre não teria respondido publicamente à oferta de Jon, e o futuro do projeto segue indefinido.
Uma lição para o mercado indie
A trajetória de "Trajes Fatais" funciona como um estudo de caso sobre a importância de uma gestão transparente no desenvolvimento de jogos. Em um mercado onde o financiamento coletivo coloca o dinheiro e a confiança do público em jogo, a prestação de contas e a clareza nas decisões são essenciais. O contraste com "Pocket Bravery" é simbólico. Nascido das mesmas raízes, mas com uma condução descrita como mais organizada, o título conseguiu sair do papel e brilhar internacionalmente. A história mostra que talento criativo, sozinho, não basta: sem estrutura e gestão sólidas, até as ideias mais promissoras podem se perder. Por ora, o destino de "Trajes Fatais" permanece incerto.