Hades: O verdadeiro senhor do Submundo na mitologia grega

Com a estreia de "A Odisseia" nos cinemas, a mitologia grega voltou ao centro das discussões. A jornada de Odisseu é marcada por encontros com monstros, deuses e criaturas lendárias. Um dos momentos mais fascinantes da epopeia de Homero é sua visita ao Submundo. A partir disso, surge uma dúvida comum: afinal, quem é Hades?
Ao contrário do que muitas adaptações do cinema e dos games fizeram o público acreditar, Hades não é o equivalente grego do Diabo. Na verdade, ele é um dos deuses mais importantes do Olimpo e desempenha um papel essencial na manutenção da ordem do mundo.
Hades era filho dos titãs Cronos e Reia e irmão de Zeus, Poseidon, Hera, Deméter e Héstia. Após derrotarem os Titãs, os três irmãos dividiram o universo por sorteio. Zeus ficou com os céus, Poseidon passou a governar os mares e Hades tornou-se o soberano do Submundo. Sua função era garantir que as almas chegassem ao destino correto e que ninguém escapasse do ciclo natural da vida. Diferentemente de Zeus, Hades raramente deixava seu reino.
A associação entre Hades e Satanás surgiu séculos depois, principalmente pela influência da tradição cristã. Para os gregos, Hades era visto como um governante severo, imparcial e incorruptível. Era temido não por ser cruel, mas porque representava a inevitabilidade da morte.
O Submundo era um vasto reino localizado nas profundezas da Terra. Para alcançá-lo, as almas precisavam atravessar rios conduzidas por Caronte, o barqueiro que exigia uma moeda como pagamento. Na entrada do reino estava Cérbero, o cão de três cabeças que impedia que os mortos escapassem. Cinco rios percorriam o Submundo: Estige, ligado aos juramentos; Aqueronte, o rio da dor; Lete, que fazia as almas esquecerem a vida anterior; Flegetonte, formado por fogo; e Cócito, o rio das lamentações.
O Submundo possuía diferentes regiões. Os Campos Elísios eram reservados aos heróis e às pessoas virtuosas. Os Campos de Asfódelos recebiam a maioria das almas. O Tártaro era destinado aos piores criminosos e inimigos dos deuses.
Uma das histórias mais famosas envolve Hades e Perséfone, filha de Deméter. Segundo o mito, Hades recebeu de Zeus a permissão para tomar Perséfone como esposa. Desesperada, Deméter fez a Terra deixar de produzir alimentos. Para resolver o conflito, Zeus determinou que Perséfone passaria parte do ano com sua mãe e outra parte ao lado de Hades. Esse mito explicava, para os gregos antigos, o ciclo das estações.
Pouquíssimos mortais conseguiram entrar no reino dos mortos e voltar vivos. Orfeu desceu ao Submundo para tentar recuperar sua amada Eurídice. Hércules realizou um de seus trabalhos capturando Cérbero. Odisseu chegou aos limites do Submundo para obter conselhos do adivinho Tirésias. Teseu tentou sequestrar Perséfone e acabou preso no Submundo.
Entre os objetos associados ao deus estão o Elmo da Invisibilidade e o bidente. Também eram símbolos de Hades o cipreste, os narcisos e as riquezas subterrâneas. Por isso, além de governante dos mortos, Hades também é o deus das riquezas escondidas sob a Terra. Os gregos frequentemente o chamavam de Plouton, palavra ligada à riqueza.
Ao longo das últimas décadas, o cinema e os videogames transformaram Hades em um grande vilão. Em animações como Hércules, da Disney, ele aparece como um deus sarcástico. Em Fúria de Titãs, Percy Jackson e diversos jogos, sua imagem também é associada ao mal. Um dos retratos mais fiéis aparece no game Hades, da Supergiant Games, que apresenta o deus como uma figura rígida e responsável.
A mitologia original apresenta um personagem mais complexo. Hades não desejava conquistar o Olimpo nem destruir a humanidade. Seu papel era manter o equilíbrio entre a vida e a morte. Com "A Odisseia" despertando novamente o interesse pela Grécia Antiga, vale a pena revisitar esses mitos e descobrir que muitas imagens populares estão longe da tradição original.