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Lendas urbanas vs creepypastas: a nova era do terror digital

Por Todos Somos Geek · · 6 min de leitura
Lendas urbanas vs creepypastas: a nova era do terror digital
“A perna cabeluda” | Crédito: Reprodução/ Acervo Diário de Pernambuco

As creepypastas surgem do fenômeno da internet enquanto as lendas urbanas são consagradas pela tradição oral. Durante décadas, histórias de assombração e personagens assustadores fizeram parte da infância de milhões de pessoas. As famosas lendas ajudavam a transmitir ensinamentos para as crianças, mesmo que de forma assustadora.

Por exemplo, bastava um adulto mencionar o homem-do-saco para muitas crianças ficarem em alerta. A história do desconhecido que circulava pelas ruas levando embora quem não obedecia aos pais marcou a infância de diferentes gerações e ganhou versões variadas em várias regiões do país. Hoje, com a expansão da internet e das redes sociais, a tradição de contar histórias migrou para o ambiente digital. As histórias se adaptaram para novos formatos, como as creepypastas.

O horror como válvula de escape

Para o jornalista Roberto Beltrão, idealizador do projeto "Recife Assombrado" na capital pernambucana, as histórias de terror continuam sendo um grande sucesso entre todas as idades. Elas ajudam os telespectadores a lidarem com seus próprios medos de forma controlada.

"Por trás de toda narrativa há um medo social ou pessoal. Histórias de zumbis, por exemplo, costumam ser alegorias políticas sobre a divisão de pessoas sãs e loucas. Quanto mais difícil a convivência social e maior o sentimento de desamparo, mais as pessoas são atraídas pelo terror, porque ele traduz muito das angústias que vivemos no cotidiano e a ficção ajuda as pessoas a lidarem com isso", concluiu o jornalista.

A lenda urbana também pode ser uma maneira de traduzir sentimentos complexos e lidar com assuntos que a sociedade ainda não está pronta para debater diretamente. Roberto Beltrão cita como exemplo a lenda da "Perna Cabeluda", conto popular que nasceu de uma notícia publicada pelo Diário de Pernambuco durante o regime militar. Na época, a matéria foi escrita de forma sensacionalista e supostamente "fictícia" para burlar a censura que os jornais sofriam na cidade do Recife.

"A matéria do Diário de Pernambuco de 1975 era sensacionalista e, em meio às sequências de matérias, uma testemunha afirmou ter visto uma 'perna cabeluda'. O jornalista Raimundo Carreiro criou uma ficção sobre isso e a história ganhou corpo, transformando um fato inicial em algo muito maior através de visões, preconceitos e questões culturais."

Mais do que apenas uma história de terror fictícia, a "perna" também passou a ser utilizada como código para que os jornalistas pudessem denunciar agressões policiais sem sofrer represálias do regime militar. A lenda urbana se constrói no imaginário coletivo a partir das sobreposições de narrativas variadas. Ela nasce de um boato ou fato concreto, ganhando novos contornos a partir de sua disseminação.

"É uma história não documentada, mas presente no imaginário popular, que fala muito sobre a própria sociedade. Embora a lenda possa perder o sentido original conforme a sociedade muda, preservá-la é preservar a memória coletiva", concluiu Roberto Beltrão.

A evolução da contação de história de lendas urbanas

Muito antes da popularização da internet, as lendas urbanas circulavam principalmente pela oralidade. Eram histórias passadas de geração em geração, muitas vezes associadas a uma região, cidade ou comunidade específica. Essas narrativas ajudavam a preservar aspectos culturais e fortalecem a identidade coletiva. Cada localidade possui seus próprios mitos, que refletem medos, crenças e experiências compartilhadas por seus moradores.

Com o avanço das tecnologias digitais, o processo de circulação dessas histórias mudou significativamente. Para Giovanna Rubbo, escritora e pesquisadora do horror na literatura, a oralidade é como a mãe da narrativa. Ela explica que a prática de contação de histórias através da fala surgiu bem antes dos livros e da escrita.

"Atuar como contadora de histórias de terror já me levou a diversos espaços, de bibliotecas a cemitérios, bares e feiras esotéricas, com os mais variados públicos, e o que sempre me impressionou é a troca de experiências. Eu acho que uma das coisas mais legais dos eventos presenciais é abrir espaço para que as pessoas façam comentários ou mesmo falem sobre suas próprias experiências", explica a pesquisadora.

Atualmente, uma narrativa criada em qualquer parte do mundo pode alcançar milhões de pessoas em poucos dias. O alcance se tornou global, reduzindo as fronteiras que antes limitavam a disseminação das lendas. Existe uma grande diferença na forma que as histórias de terror são contadas digitalmente.

"Podemos até deixar um comentário, mas não é a mesma coisa. Talvez o coletivo afaste o medo que um ouvinte poderia sentir se estivesse em casa, sozinho, ouvindo aquela mesma história. Mas as histórias de terror não têm o medo ou o susto como únicos objetivos. Elas também podem causar repulsa, humor, desconfiança e até mesmo reflexões sobre nós, como seres humanos, e a sociedade em que vivemos", conclui Giovanna.

Mesmo que não seja tão comum encontrar rodas de histórias, ainda existem muitos projetos com o intuito de manter a tradição da oralidade viva. Esses espaços permitem que as pessoas voltem a socializar e criem a coletividade a partir das histórias.

"Também temos projetos incríveis como o 'Pílulas Sombrias', 'Patrimônio Funerário SP' e 'O que te assombra?', realizando necroturismo pelos cemitérios da cidade, resgatando lendas e fatos históricos. Acredito que também existam muitos outros trabalhos de guerrilha pelas histórias de assombração pelo Brasil."

Creepypasta e a modernidade na contação de história

Para começar a compreender o fenômeno das creepypasta precisamos olhar para suas palavras de origem. O termo é a junção de "creepy", que pode ser visto como "bizarro" ou "aterrorizante", e "pasta", que vem de "copypasta", próximo ao ato de copiar e colar certo texto entre fóruns online. As creepypasta são histórias bizarras partilhadas tantas vezes no ambiente online que se tornam virais.

Essa prática teve início nos anos 2000 em um período mais simples da internet onde os blogs e fóruns reinavam como forma de contato social. A autoria dessas histórias tem no anonimato sua maior marca, algo que agrega no horror delas, já que não se sabe de suas origens. As creepypastas se tornam uma versão moderna das clássicas lendas urbanas, visto que todos os aspectos das lendas estão presentes nelas. Dentre eles, a prática de compartilhar entre outros, agora feita em fóruns online e que são uma forma moderna de transmissão oral, bem como o lado misterioso, sombrio e até fabulesco que carregam, muito disso devido às lições que trazem.

Um outro aspecto sobre elas é a natureza moderna de sua formação, que se reflete em algumas delas trazer personagens de desenhos ou videogame, como "O suicídio de Lula Molusco" ou a "BEN Drowned".

A creepypasta enquanto folclore digital

Uma outra ótica a qual se pode ver as creepypasta, para além do aspecto superficial da internet, é como forma de folclore digital. Na aldeia digital das redes, essas narrativas, por partirem de diversos lugares, trazem dúvida sobre a nossa própria realidade. De acordo com Roberto Beltrão, a creepypasta trabalha com o conceito de "zona crepuscular", que desafia o senso de realidade.

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